BIOGRAFIA
Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu em Lisboa a 19 de dezembro de 1924. O seu pai, António Pereira de Eça O'Neill de Bulhões, era empregado bancário e sua mãe Maria da Glória Vahia de Castro O'Neill de Bulhões, doméstica.
Inicia os seus estudos em 1932. Em 1946 sai de casa dos pais devido a conflitos familiares e vai viver para casa do tio materno. Em 1948 surgem as primeiras manifestações públicas de interesse pelo fenómeno poético.
O'Neill, tal como a maioria dos artistas portugueses, não pôde viver da sua arte. Afirmava viver de versos e sobreviver da publicidade. Foi intérprete de uma generosa biografia do amor. Vasto foi o seu currículo, onde constam diversas colaborações para jornais, revistas, televisão, etc.
Faleceu a 21 de agosto de 1986, vítima de um acidente vascular cerebral, depois de ter passado vários anos doente.
O'NEILL
O apelido O'Neill, de origem irlandesa, advém da avó paterna, Maria da Conceição, com ascendência na Irlanda.
Alexandre optou por este apelido de família, não por qualquer snobismo ou moda estrangeirada. A razão da sua escolha deveu-se à tradição do modo de viver dos O'Neill, que contavam com uma história aventurosa de quase 1000 anos: rezava a lenda que não houve um único O'Neill que morresse de morte natural.
ESTUDOS
Em 1932 entra para a Escola Primária da Rua S. José dos Carpinteiros.
Um ano depois ingressa no Colégio Português de Educação Feminina, onde termina a instrução primária e inicia os estudos secundários. Do liceu foi para a Escola Náutica de Lisboa. Em 1944, após concluir o 1.º ano, dirigiu-se à capitania de Lisboa para pedir uma cédula marítima. A resposta negativa gorou a ambição do poeta, que desejava ser piloto. O'Neill foi rejeitado por causa da miopia. A propósito deste episódio escreveu: "Já andei para marinheiro, mas pus óculos e fiquei em terra". O poeta não prosseguiu mais estudos.
MOVIMENTO SURREALISTA DE LISBOA
Em 1948, Alexandre O'Neill, juntamente com Mário Cesariny, António Pedro Vespeiro e José-Augusto França, lança-se na aventura do surrealismo. Este movimento, fruto da sua época, surgia como provocação ao regime político vigente e à poesia neorrealista.
Em 1950, O'Neill decide-se pelo abandono polémico do movimento surrealista, expressando desta forma o seu desagrado pelo rumo simulado e decadente em que o surrealismo mergulhara. O poeta nunca foi muito de regimentos e o surrealismo tinha algo de disciplina ideológica. Contudo, a sua poesia conservou traços surrealistas.
REGIME POLÍTICO
O regime político imposto por Salazar nunca conseguiu granjear a simpatia do poeta, antes pelo contrário. O'Neill esteve sempre do outro lado a escrever panfletos e a colaborar em diversas atividades antiditatoriais. Em 1953 foi preso durante 21 dias no Estabelecimento Prisional de Caxias por ter ido esperar Maria Lamas, regressada do Congresso Mundial da Paz em Viena. Viu o seu passaporte confiscado pela P.I.D.E. quando pretendeu viajar para França. Identificava-se com os partidos de esquerda (Partido Comunista Português e Partido Socialista), embora fosse um apoiante crítico.
O'Neill retrata desta forma o salazarismo: "(...) à roda em que apodreço/ apodrecemos / a esta pata ensanguentada que vacila / quase medita / e avança mugindo pelo túnel / de uma velha dor."
PUBLICIDADE
A publicidade foi a maneira menos trabalhosa de ganhar o sustento que Alexandre O'Neill encontrou. Esta é uma área que requer destreza e àvontade com as palavras e nesse campo o poeta sentia-se como peixe na água.
Porém, Alexandre O'Neill não criou nenhum vínculo afetivo com esta profissão. Criou algumas frases publicitárias que ficaram na memória, como 'Bosch é Bom' e esse outro slogan, que é já provérbio, Há mar e mar, há ir e voltar. A publicidade deu-lhe o conforto económico de que necessitava, mas sempre que se enfastiava mudava de patrão e agência publicitária.
PASSAGEM POR CONSTÂNCIA
Um grande poeta menor, transbordante de sonhos e sedento de realidades submersas, foi em vida, e é em morte, incompreendido e por vezes votado ao esquecimento.
90 anos passados do seu nascimento é em Constância imortalizado, lido, amado, mas por poucos recordado. Por Constância passou, em Constância viveu e Constância o imortalizou. Ainda hoje vive nas estantes da Biblioteca Municipal, onde a sua biblioteca pessoal pode ser admirada e a sua poesia lida, cantada e recitada.
Alexandre O'Neill fez da pátria o seu tema mais constante e do verso crítico o pincel com que pintou paisagens, gestos e costumes quotidianos. Esse terá sido o preço que pagou por se ter recusado diluir numa qualquer poesia do populismo fácil.
COLEÇÃO ALEXANDRE O’NEILL
Em 1986, ano da sua morte, o seu filho doa ao município de Constância a sua biblioteca pessoal, constituída por 3461 títulos, levando à criação da então denominada Coleção O'Neill da Biblioteca Municipal.
No ano de 2005 atribuiu-se oficialmente o nome do poeta Alexandre O'Neill à Biblioteca Municipal, numa cerimónia que contou com a presença do filho do poeta, Afonso Gouveia O'Neill.
Em 2014 e no âmbito da comemoração dos 20 anos da Biblioteca Municipal Alexandre O´Neill, pretende-se apostar no estudo, valorização e divulgação das obras que constituem a Coleção O´Neill desta biblioteca, promovendo a memória do poeta e a sua ligação à Biblioteca Municipal e ao concelho de Constância.
No passado dia 1 de agosto de 2014 a primeira esposa de Alexandre O'Neill, Noémia Delgado visitou a Biblioteca Municipal Alexandre O'Neill, em particular a Coleção O´Neill, onde foi recordado um grande poeta, transbordante de sonhos e sedento de realidades submersas, que por Constância passou, em Constância viveu e ainda hoje vive, nas estantes da Biblioteca Municipal.